Entrevista com Estevan Silveira
- Luis Felipe dos Santos Kemmerich
- 30 de ago. de 2023
- 5 min de leitura
Atualizado: 31 de mar. de 2024
Nesta entrevista, o já veterano ilustrador nos guia pela sua jornada artística, desde os primeiros traços até as parcerias com grandes clientes e times.
Explorando os intricados traços que dão vida às narrativas visuais, mergulhamos no trabalho do ilustrador gaúcho Estevan Silveira. Residindo e atuando em São Paulo, Estevan traz consigo uma bagagem de experiência impressionante, tendo colaborado com renomados clientes e times. Nesta cativante entrevista, desvendamos os bastidores de sua carreira, desde os primeiros traços até ao presente momento. Ele ainda deixa alguns insights valiosos sobre sua trajetória profissional e artística.

Como começou desenho para você? A quanto tempo seu foco tem sido ilustração?
O desenho me acompanha desde muito cedo. Lembro de passar horas quando criança rabiscando em folhas de cadernos replicando e criando com meus personagens favoritos. Essa vontade de me expressar pelo desenho me acompanhou durante toda minha infância e adolescência, até que resolvi cursar Design na faculdade. Venho trabalhando profissionalmente com design e ilustração desde 2010, quando mudei para São Paulo a fim de iniciar minha carreira na área.

Pode falar um pouco da sua formação? Onde estudou? Como aprimorou sua técnica?
Entre 2007 e 2011 cursei Desenho Industrial – Programação Visual na Universidade Federal de Santa Maria, RS. Assim que concluí a graduação mudei para São Paulo onde inicialmente trabalhei como designer gráfico. Passei por diversas agências até que resolvi focar somente em ilustração. Nesse período senti que precisava aprimorar minhas técnicas para me sentir mais confiante e pudesse de fato entrar no mercado de ilustração. Foram diversos cursos, palestras e workshops visando entender mais do mercado e preencher as lacunas que via no meu desenho.
Dentre os cursos que sinto que mais contribuíram para o meu trabalho foram: Sketch e Criação de Personagens, na escola Melies e Dynamic Sketching 1 e 2, The Art of Color and Light e Environment Sketching na CGMA.
Outra coisa que sempre gosto de citar quanto ao meu processo de desenvolvimento e aprendizado em ilustração é a importância de estudar outros artistas. Sinto que aprendi muito estudando nomes como: John Romita Jr., Frank Miller e Mike Mignola.
Entender o racional por trás dos traços e soluções de diferentes artistas acrescenta demais ao seu repertório. Observação e curiosidade é essencial no processo de aprendizado e descoberta e faço isso até hoje.
Ter estudado história da arte e ter tido contato com diferentes movimentos artísticos assim como artistas clássicos também acho que foi essencial para a construção do meu repertório visual. Entender o racional por trás dos traços e soluções de diferentes artistas acrescenta demais ao seu repertório. Observação e curiosidade é essencial no processo de aprendizado e descoberta e faço isso até hoje.

Você está no mercado editorial faz um bom tempo. Você considera que o mercado mudou muito para um ilustrador? Quais as diferenças dos primeiros anos da sua carreira para os mais atuais?
O mercado editorial, acho que foi o que mais sofreu com os avanços tecnológicos e alterações culturais da última década. A demanda por mídias físicas diminuiu consideravelmente e acabou afetando economicamente editoras e livrarias e, consequentemente, os profissionais relacionados a esses mercados. Embora eu perceba hoje um resgate de livros e revistas, reformulados com belíssimos e atrativos projetos de design, acho que ainda assim os números são menores que antigamente.
Quando comecei minha carreira ilustrando para revistas, editoras como Abril e Globo dominavam o mercado. Tinham mais títulos circulando e consequentemente mais oportunidades e pedidos de trabalho. Ainda que o mercado esteja mais achatado, oportunidades continuam aparecendo, editoras vem se reformulando e torço para uma reviravolta no mercado editorial nacional.
Tem alguma coisa no seu trabalho que você tem focado mais? Estudado ou simplesmente tentando estar mais consciente durante o processo de criação?
Ultimamente tenho focado no mercado audiovisual, seja produzindo keyart ou style frames para animações, jogos, etc. Este ano comecei um exercício de tentar produzir mais ilustrações e projetos pessoais. No último ano fiquei muito envolvido com a montagem e gravação do meu curso de Ilustração Digital para a escola EBAC e quase não sobrou tempo para projetos pessoais.
Estou adorando criar cartazes para homenagear franquias, diretores e personagens que gosto. É uma boa forma de exercitar o design e a ilustração. Gosto de pensar na composição, linguagem e acabamentos para essas criações, além de ser uma boa forma para explorar um estilo mais autoral.
O que você aprendeu durante sua carreira que considera algo aplicável até hoje?
Eu considero que ter feito a faculdade de Design é um diferencial pra mim como ilustrador. Isso com certeza contribuiu com meu processo de aprendizagem e criatividade em meu trabalho como ilustrador. Como designer você estuda semiótica, composição, metodologia de criação e desenvolvimento de projetos, entre inúmeras outras coisas que eu aplico diariamente trabalhando como ilustrador.

Tem uma parte do seu trabalho que tem um direcionamento para o gênero de terror. O que inspira você a abordar este tema? Como você acha clientes nesse gênero?
Terror sempre foi um gênero que me despertou interesse mas nunca imaginei ter uma linha do meu trabalho direcionada a isso. Sinto que foi algo que se desenvolveu naturalmente. Sempre gostei, por exemplo, da dramaticidade da arte barroca percebida em artistas como Rembrandt ou Caravaggio. Gosto também de ilustradores como Bernie Wrightson ou Sergio Toppi que exploram o alto-contraste de forma muito particular.
Isso acabou influenciando meu traço como ilustrador e tudo se concretizou de uma forma muito despretensiosa quando enviei pra redação da revista Mundo Estranho, em meados de 2014, três artes inspiradas em filmes clássicos de terror: Halloween, Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo. Eles gostaram bastante e passaram a me chamar mensalmente para ilustrar as pautas mais obscuras da revista. Um trabalho foi chamando outro dando origem a uma linha de ilustração voltada para esse gênero em meu portfólio.
Você já teve muitos clientes. Que projetos seus que você pode mostrar aqui, que você tem um apreço especial?
Tenho um apreço muito especial ao meu projeto de conclusão de curso de Desgin Gráfico, em que fiz um livro ilustrado do Chamado de Cthulhu de H.P. Lovecraft. Concluí o projeto em 2010 e provavelmente hoje faria muita coisa diferente. De qualquer forma, acho que isso que é interessante, olhar para trabalhos que você fez e reconhecer os erros e os acertos.
Também não posso deixar de citar os cartazes da série “Tales of Terror” que me lançou no mercado editorial brasileiro. Outro ponto de virada foram as capas de livros para a série Clássicos do Horror, onde ilustro Drácula, O Médico e o Monstro, e Frankenstein.

Por último, gostaria de citar um projeto recente e que, com certeza, foi um dos mais desafiadores de que já participei: Diablo IV – El Jardin del Infierno. Um conjunto de três cartazes inspirados no clássico tríptico de Bosch, Jardim das Delícias Terrenas. Esse trabalho contou com um time de diversos ilustradores e muito esforço conjunto para ser concluído. Acompanho a franquia Diablo desde sua primeira edição, de 1996, e ter tido a oportunidade de participar dessa campanha, que é parte de uma grande ação para o lançamento do jogo Diablo IV foi um sentimento realmente especial.

Que artistas te inspiram ou você acaba percebendo a influência no seu próprio trabalho?
Existem vários. Eu procuro sempre ficar atualizado minhas referências, procurando por novos nomes e tento aprender com cada um deles, mas alguns sinto que foram essenciais: Caravaggio, Jim Steranko, Mike Mignola, Sergio Toppi, Francesco Francavilla e Gigi Cavenago. Você tem alguma dica para quem está começando na área?
Estude e procure se desenvolver naquilo que você gosta. Não se compare e não dê muita importância a outros portfólios. O foco deve ser no seu trabalho para que você possa atingir aquilo que almeja para o seu futuro.
Você pode conhecer mais do trabalho do Estevan através dos links: - Instagram; - Site; - Behance; - Curso da EBAC.



























