Entrevista com Yoshi Itice
- Luis Felipe dos Santos Kemmerich
- 15 de mar. de 2023
- 6 min de leitura
Atualizado: 31 de mar. de 2024
O experiente quadrinista e ilustrador Yoshi Itice, com mais de 10 anos de atuação na área, compartilha conosco algumas de suas vivências e deixa algumas dicas para quem está começando.
Yoshi começou a trabalhar com Histórias em Quadrinhos em 2010 quando fundou o estúdio LoboLimão. De lá pra cá, participou de muitos projetos, incluindo até uma minisérie para o famoso jogo Minecraft: “Minecomics – A Ameaça de Zork”, publicada pela Editora Tambor.
Em 2017, ano em que conheci seu trabalho, Yoshi começou a produzir e publicar de forma independente a série “Eventos Semiapocalípticos” que compreende cinco volumes: “Eduardo e Afonso” (2017); “Gilmar” (2018); “Gabriela” (2019); “Rafael” (2021); "Zé Augusto" (2022). Estes títulos fazem parte do grande número de dez campanhas bem sucedidas na plataforma de financiamento coletivo Catarse, uma consistência que chama a atenção.
Nesta breve entrevista, Yoshi fala um pouco da sua trajetória e o que aprendeu com ela.

Como começou o desenho para você? Sempre foi junto com a vontade de contar uma história?
Eu era uma criança muito criativa. Sempre gostei de criar personagens, histórias e mundinhos e o desenho, desde cedo, foi a maneira que encontrei de trazer essas ideias para o mundo.
Quais são as suas obras favoritas ou projetos dos quais você mais se orgulha?
Eu tenho muito orgulho de todos os meus quadrinhos impressos, principalmente por cada um ter me ensinado algo novo. O Last RPG Fantasy foi minha primeira publicação impressa e eu lembro com muito carinho de todo o processo e seu lançamento, além de ter sido um projeto bem diferente pra época – um livro-jogo em quadrinhos. Mas acho que a série Eventos Semiapocalípticos foi onde eu me encontrei como artista de verdade.
O que da técnica de desenho é importante para você na hora de fazer uma HQ?
Trazer uma ideia para o mundo real é um processo muito difícil e doloroso, então tudo o que eu aprendo sobre técnica de desenho ou narrativa vira ferramenta. Acho que uma das principais coisas foi aprender composição e enquadramento, acertando isso ainda na fase de esboço da HQ é meio caminho andado pra produção. O resto vira quase “trabalho braçal”.
"Eu achava que um dia eu chegaria em um nível em que eu ia me sentir confortável com o resultado e ficar por ali, mas não é o que acontece, quando vejo já estou empurrando um pouquinho aqui ou ali."
Você trabalha com quadrinhos desde 2010, estamos em 2023, é um longo caminho. Que aspectos da sua função você sente que amadureceram nesse tempo? Tem alguma coisa que você gostaria de desenvolver mais como artista?
Tem sido uma longa jornada mesmo e me vi obrigado a ser autodidata em muitos aspectos trabalhando como artista independente. Não só na parte de criação, mas também sobre como administrar o lado profissional. Tive que aprender não só a escrever e desenhar, mas também sobre mercado editorial, produção gráfica, financiamento, administração de projeto, vendas e uma porção de outras coisas que você não se dá conta no começo que precisa aprender.
Mas como artista mesmo eu estou sempre me colocando pequenos desafios para dar um passinho além de cada vez. Seja nas cores, na construção de roteiro, na arte final, no design dos personagens ou cenários. Eu achava que um dia eu chegaria em um nível em que eu ia me sentir confortável com o resultado e ficar por ali, mas não é o que acontece, quando vejo já estou empurrando um pouquinho aqui ou ali.
O cuidado que você tem com as cores é bem perceptível. Pode falar um pouco de como você estudou cor e como funcionam suas decisões em uma página ou capa? Tem artistas cujo trabalho chama sua atenção nessa mesma área, na cor como objeto de expressão?
Esse era um dos meus maiores desafios. Quando estudei sobre cores na faculdade eu entendi muita coisa na teoria, mas não conseguia aplicar na prática. O que mudou em mim foi quando eu me dei conta que a cor é como um “sabor”; uma sensação que você quer incluir ali naquela ilustração e não tem a ver necessariamente com “lógica”. A partir daí, sempre que eu ia colorir algo, eu buscava referências que tivessem aquele “gostinho”, mesmo que essa referência não tivesse nada a ver com o que eu tava desenhando. Aí eu tentava emular aquilo. Com o tempo eu fui encontrando minha própria zona de conforto nos tons e fazendo mais experiências.
Eu gosto muito da maneira como o Pascal Campion trabalha luz e as cores do Matt Rockefeller. Tem vários outros artistas que acabam servindo de inspiração também, vou misturando tudo e vejo no que dá.
A série "Eventos Semiapocalípticos" possui um elenco de personagens bem grande e distintos. Que tipo de coisas você pensa para solucionar isso, tanto na história como na parte visual? Para você, geralmente a história vem antes ou depois do design?
Assim como as cores já foram uma pedra no sapato, design de personagens também já foi um desafio gigante pra mim. Ainda é um pouco, mas há uns anos atrás era terrível. Quando eu fui fazer o primeiro volume da série, o “Eduardo e Afonso”, eu quis fazer o desenho mais simples possível pra eles. Então um ganhou um poncho que o cobre do pescoço até os pés e o outro virou uma secadora de roupas. Ironicamente eu fui acrescentando mais e mais e mais personagens e no último volume estava desenhando quadros com mais de oito personagens em cena.
Alguns personagens surgem sem forma, outros surgem pela forma e depois encontro um propósito, mas no final todos eles servem, de alguma maneira, à história. Então eu tento incluir neles elementos que ajudem a narrar quem eles são e que mundo é esse. É mais ou menos assim que faço os cenários também. As locações são “personagens” que ajudam a transmitir uma sensação, uma ideia ou a história como um todo.

Você possui um material bem didático no seu Instagram, tanto de quadrinhos como de marketing pessoal. Você consegue ver esse material sendo publicado de alguma maneira?
Como eu tive que aprender muita coisa sozinho, eu gosto de compartilhar as coisas que sei e aprendi ao longo desses anos. Quem sabe isso ajuda a encurtar a jornada de alguém, né? Eu tenho muita vontade de montar um ou mais livros compilando essas coisas que aprendi. É um projeto que está mais ou menos engavetado e mais ou menos em andamento.
Em que você tem trabalhado atualmente?
Esse ano meu foco principal está na Graphic MSP do personagem Do Contra. Fiquei feliz demais com o convite e estou tentando equilibrar várias ideias. É um desafio bem diferente, porque o personagem não é meu, é do Mauricio de Sousa, então é uma baita responsabilidade. O público também é bem maior que o meu, mas estou colocando muito de mim nele. Essa HQ sai só ano que vem, então estou fazendo outras coisas em paralelo. Quero lançar um quadrinho mais curtinho até o final do ano e, se rolar, algumas outras coisas.

E o que você tem lido?
Ao longo do ano eu não tenho muito o costume de parar pra ler. Acontece, mas é meio raro. Então nas férias eu levo uma mala cheia e no comecinho do ano eu li muita coisa. De cabeça, os quadrinhos que eu li que gostei muito foram “Land of the Sons” do Gipi, “Como Antes” do Alfred e “A Casa” do Paco Roca.
Uma dica para quem está começando.
Eu tenho três dicas pra quem quer fazer quadrinhos... Eita! Manda aí....
1) Estude quadrinhos. Pode parecer que não, mas existe muito material teórico e gostoso de ler sobre produção de quadrinhos. Minha recomendação fica principalmente nos livros do Scott McCloud e Will Eisner, mas uma boa porta de entrada também pode ser os do Raoni Marqs. O lance de estudar é te ajudar a “cortar caminhos” e não ter que queimar a cabeça recriando a roda.
2) Leia muito. Assista muito. Jogue muito. Aumente sua bagagem cultural e imagética. Muita gente dá esse conselho de “ler muito”, mas nem todos lembram de complementar que a gente faz isso pra aumentar o nosso repertório para ajudar na criatividade e aguçar a percepção sobre elementos gráficos e narrativos.
3) Produza um quadrinho curto do começo ao fim. Pode ser umas 8 páginas só. Mas tem que ter começo, meio e fim. Não pode ser um “capítulo um”. O lance é que a cada aprendizado a gente erra muito, então a ideia aqui é passar por todas as etapas de uma produção o mais rápido possível para errar o mais rápido possível e poder seguir para projetos mais ambiciosos de forma mais segura.
Você pode conhecer mais do trabalho do Yoshi Itice através dos links: - Site; - Instagram.























