Ingres e seus retratos - A pessoa como tema
- Luis Felipe dos Santos Kemmerich
- 9 de jan. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 31 de mar. de 2024
Uma breve interpretação das escolhas do pintor neoclássico.
Muitas vezes o tema de uma imagem acaba por influenciar como o público pode interpretar ela. Incontáveis vezes vi obras serem subestimadas por apresentarem alguns temas: "é só uma flor" ou "o que tem de interessante em um vaso?." Entretanto, deixando de lado preconceitos, uma boa arte é muito mais sobre "como" ao invés de "o que".
Os arranjos de tons, manchas e formas influenciam o que sentimos sobre aquele personagem. Um retrato pode ser mais do que só a imagem de uma pessoa, é uma afirmação sobre sua personalidade.
De todos os temas mundanos, desenhar uma pessoa é vista com melhores olhos pelo público, devido a notória dificuldade de representar a figura humana. Mas uma pessoa é um tema tão comum tanto quanto um vaso. Arriscaria dizer que existem tantas pessoas quanto vasos no mundo. Especulações à parte, o artista como um intérprete do mundo, ele pode condicionar um tema para uma visão mais orientada e o tema "pessoa" não seria diferente.

Além da habilidade técnica da representação pictórica, o padrão em que um retrato é organizado tem grande importância. Os arranjos de tons, manchas e formas influenciam o que sentimos sobre aquele personagem. Um retrato pode ser mais do que só a imagem de uma pessoa, é uma afirmação sobre sua personalidade. Claro, geralmente tentando satisfazer as vontades de quem encomendou este retrato ou a intenção do artista.
Para exemplificar isso, trouxe o trabalho do pintor neoclássico Jean-Auguste Dominique Ingres, que era um grande retratista. Entre suas pinturas mais famosas se encontra Napoleão I no seu trono imperial (1806), que em diversas interpretações a conotação de poder é apontada. Neste retrato Ingres usa formas de caráter geométrico e simétrico em torno do rosto do imperador, contrastando com o restante da obra, onde há um arranjo mais orgânico e irregular. Assim, é possível constatar uma ideia de ordem contra caos, aquilo que vem para organizar contra o que está bagunçado.

Através do domínio das suas escolhas artísticas Ingres deixou para nós estas pequenas histórias em grandes pinturas. O artista vai além de imitar figuras e as compõe com intenção.
As próximas pinturas podem ser analisadas isoladamente, mas expus uma ao lado da outra pra provar meu ponto, de que o tema pode ser moldado nas mãos do artista e também na interpretação de quem vê. São duas mulheres, mas nem por isso Ingres às retrata do mesmo jeito. Nosso esforço aqui é perceber estas diferenças.

Em uma das pinturas temos uma pessoa composta por formas mais passivas. A direção do rosto e olhar coincidem, causando a afinidade entre as partes. O torso e a cadeira também se alinham a esta posição, exaltando semelhança entre as partes. O padrão de cores também parece reforçar isso, com uma palheta análoga, sem uma grande diferença de matizes. Poucos detalhes em torno do rosto tornam a pintura mais simples, rápida e fácil de ler. As mãos em repouso dão um ar imóvel e de descanso.
De outro lado, temos praticamente o oposto de todas as escolhas anteriores. A direção do rosto e olhar apontam em sentidos diferentes, um contraste que confere maior intensidade à composição. Isto é reforçado pela direção do torso, que se encontra em ângulo diferente dos elementos já citados, contribuindo também para uma noção mais profunda de perspectiva. Quanto às cores um contraste praticamente complementar de matizes. Enfim, a presença de mais detalhes em torno do ponto focal, seu rosto, cria mais informação e movimento no olhar, deixando a imagem mais "agitada".
Vale constar também as diferenças de como estas mulheres posam em relação ao fundo, uma delas criando uma mancha mais simétrica e outra assimétrica, levemente deslocada do centro vertical.
Depois de apontar tudo isso, é possível pensar que estas pessoas têm personalidades distintas. Fica mais fácil de imaginar qual delas seria a mais introvertida ou extrovertida. Através do domínio das suas escolhas artísticas Ingres deixou para nós estas pequenas histórias em grandes pinturas. O artista vai além de imitar figuras e as compõe com intenção. Como controlar formas com intenção é um assunto que desenvolvo no meu curso de composição. Dá uma olhada lá. Até mais!











